Recentemente esteve em discussão pública o Programa Especial do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PEPNPG) – Regulamento de Gestão da Área Protegida (RGAP). Num território cuja apropriação e regime de propriedade é definido maioritariamente pelo baldio e o privado-particular, com o estado a deter parte residual, temas como os da propriedade e dos usos e usufrutos emergem, porque surgem normas, regulamentos e directrizes que os proprietários (a título individual ou colectivo), entendem que os desconsideram como agentes da natureza, e do Parque, em particular. De quem é, afinal, a natureza? Em que estado se encontra a natureza? Quem dela e nela pode por e dispor? Quem sobre ela(s) (pensando nos seus múltiplos constituintes humanos e não-humanos, bióticos e abióticos) pode falar? De quem (no sentido da propriedade e do que representam) são as áreas protegidas? E o Parque Nacional da Peneda-Gerês? Deve o adequado uso dos recursos, e da natureza, ser independente do regime de propriedade?
Há neste conjunto de interrogações, vários horizontes temáticos e filosóficos imprescindíveis de abordar – Bem Comum, Cidadania e Futuro – que nos permitem pensar temas como a propriedade, a escalas muito mais vastas e necessárias, num enquadramento global no qual a reflexão sobre o que é e pode ser o baldio também se coloca. Posicionamo-los porque nos parece crítico pensar a responsabilidade inerente a uma cidadania reflexiva (humana) capaz de pensar o alcance das suas acções, o impacto das suas decisões no presente (que é, como sabemos, quando e onde começa o futuro). E outras perguntas se afiguram: Como queremos viver em sociedade? Como queremos viver com os outros bióticos e abióticos? Quais as responsabilidades colectivas, individuais e organizacionais-estatais que queremos assumir para que possamos viver em ambientes saudáveis e sustentáveis? E pensamo-lo numa ética ambiental projectiva mais-do-que-humana, onde não caibam só os interesses dos humanos (e de alguns em particular) que habitam o aqui e o agora dos vários lugares do planeta, esquecendo os outros (humanos e não-humanos), os demais lugares e os futuros por-vir?
Num tempo de propriedades instáveis, nos múltiplos sentidos da expressão (político, administrativo, climatológico, económico, identitário, etc.), de apropriações arbitrárias e amorais de tudo (desde as ideias aos territórios), de mercantilizações e financeirizações especulativas associadas a um capitalismo predatório que a tudo e sobre tudo projecta valor, e onde se volta a reforçar a crença na força transformadora acelerada e ilimitada (deífica) dos humanos sobre tudo o resto (cada vez mais a uma escala extraplanetária), parece-nos urgente parar para pensar e reflectir sobre a condição humana e o modo como podemos conceber muito concreta e especificamente a nossa relação com a natureza, o ambiente, os não-humanos, os nossos cuidados e descuidados, responsabilidades e irresponsabilidades na relação com o bem-comum, a coisa pública, como esferas vitais da nossa vida.
Uma cidadania para a Natureza e o Bem Comum vai para além de deveres individuais, envolvendo igualmente a responsabilidade colectiva para um mundo partilhado mais sustentável. O respeito e a preservação da natureza são partes essenciais desse compromisso.
Caminhando, no contacto sensorial e na imanência da experiência directa das coisas, da matéria, dos elementos, do ar, da água, das pedras, dos sons e (ir)regularidades da natureza (do Mundo) é sobre nós humanos (talvez menos do que sobre a natureza não-humana) de que trata a terceira edição dos seminários caminhados. Porque se tivermos a capacidade e a coragem de nos descentrarmos dos nossos centrismos sociais e de espécie, veremos que somos da mesma matéria (atómica) que tudo o resto. E veremos que não estamos sós, assim como teremos que considerar que a propriedade do Planeta e da Natureza é algo muito mais complexo do que qualquer tratado ou documento escrito possa declarar.
Importa especular e reflectir, desafiar os nossos limites perceptivos e conceptuais, as nossas crenças e definições. Não ficar nas sombras que reproduzem as nossas certezas para que o Estado do Mundo (O Futuro), como bem comum de todos (mas mesmo todos, incluindo não-humanos), possa ser verdadeiramente equacionado.
Sinopses das comunicações
“Porosidade” | André Barata (UBI)
“De todos, não é de ninguém” | Carlos S. Nuno
“De quem é a Natureza? Bem Comum, Cidadania e Futuro” | Joana Nogueira (ESA-IPVC)
“Desenvolvimento sustentável: o compromisso de partilhar os benefícios dos recursos baseados na biodiversidade” | Paulo Travassos (UTAD)
“A quem pertence a Terra? Poderes e limites do direito de propriedade” | Rómulo Machado
“A cantar vivemos: instântaneo sonoro com as Cantadeiras de Campo do Gerês” | Luís Pinto
“Por um Bem Comum – Comunitário e Universal” | José Carlos Pires (ABSG)
Dia 24
Dia 25
Organização e Apoios


















































