Caminhar na paisagem: encontro de um eu e de um tu
“Grande parte das vezes, quando caminhamos num determinado lugar que conhecemos (no caminho casa-trabalho-casa, ou mesmo quando nos deslocamos na cidade por lazer – para ir ao cinema, ao café, a lojas), o lugar onde nos encontramos passa-nos quase despercebido. Aguardamos até que o sinal fique verde ou olhamos para ambos os lados a ver se vem um carro quando não há semáforos, mas se o carro que aí vem é azul, preto ou laranja, novo ou velho, raramente nos prende a atenção.”
O Clima Estável é a nossa Casa Comum
“Um clima estável é uma manifestação do Sistema Terrestre num bom estado de funcionamento. Existe hoje um consenso cientifico alargado acerca da atual trajetória do Sistema Terrestre, numa direção irreversível de uma Hot House Earth1 . Apesar disso, as sociedades humanas continuam incapazes não só de reduzir a pressão sobre este sistema, como também são incapazes de proceder a uma mudança de paradigma que permita de forma pró-ativa restaurar um clima estável e garantir posteriormente a sua permanente manutenção.”
Entre Caminhos e Penedos na Serra do Gerês
“Toda a paisagem supostamente natural atinge o observador que a atravessa com o seu corpo, pela primeira vez, como algo novo, desconhecido e intocado. Enquanto não soubermos o que sofreu, como foi alterada pelo tempo, pelo clima e pela intervenção humana, a paisagem revela-se como Natureza no sentido puro, mas ideal do termo. Mas no tempo em que vivemos hoje, em que habitamos a Terra alterando-a de forma fundamental, o que pode ser designado com o termo Antropoceno, o tempo em que os humanos aparecem como uma força titânica da natureza, já não há lugar para uma Natureza intocada.”
A paisagem—entidade viva onde vivamente se lê o destino humano
“Quando se escreve sobre a paisagem do Gerês, pensamos no desalinho—dos volumes, das cores, do perfil das montanhas, das linhas de água. O clima rigoroso, difícil, propaga, também ele, uma vegetação constituída por plantas que têm de aprender a adaptar-se, umas vezes rasteira ao chão, outras tentando as alturas, tal como a giesta, que, em abril e maio, oferece flores brancas e amarelas que parecem frutos e que são, afinal, poemas vegetais.”
Baldios: Espaços de oportunidade para os territórios e para o Bem Comum
“Ao longo dos últimos anos tenho tido a oportunidade de trabalhar com comunidades de montanha no noroeste de Portugal. São pequenas povoações, nas quais a agricultura e a floresta ocupam ainda um lugar substancial na cultura, nos modos de vida e na paisagem, interligando a vida social e humana com a natureza. Não como no passado, certamente, quando se dependia quase estritamente do que se podia retirar da terra e da serra. Hoje, e já há várias décadas, estas aldeias fazem parte do mundo global em que vivemos. Mas há persistências nesta alteridade. A serra continua a ser um espaço de liberdade, com outros ares, boas águas, e importantes refúgios da vida silvestre.”
