A antropização da natureza, das paisagens, das árvores, do espaço vital, não tem cessado, patente em diversos espaços que nos rodeiam, desde tempos recuados, com um traço persistente no entorno visível, e invisível.
Inscrito na longa duração do seu estar-no-mundo, são vários os registos históricos deste percurso, mais ou menos percebido e entendido, assim como as tentativas de contenção e recuperação, mais ou menos hesitantes ou concretizadas, entre iniciativas regulamentares e vontades manifestas, assim como oscila a própria relação humana com o que o sustenta. Cada marca é um testemunho. Ora de uma apropriação afirmativa, ora de um esforço titubeante, com reflexo de forças projetadas sobre o real.
Para lá de ideologias ontológicas temporais, o humano, opondo o espírito ao mundo material, persistindo numa clivagem, entre o anseio de transcendência e o ímpeto de posse, torna-se senhor do seu jardim, mestre e possuidor da natureza. Senhor dos espaços que habita, aprofunda, em várias situações, um caminho cartesiano de apropriação, dominação e exploração, sem guardar o ambiente, exteriorizando a sua existência. Instaura um regime de relação assimétrico, num horizonte manipulável. Paradoxalmente, exila-se ainda mais de si mesmo.
A natureza, as árvores, são dessacralizadas, reduzidas.
Em diversos contextos, a humanidade é inexoravelmente construída sobre a depredação, o que conduzirá a uma nostalgia de uma harmonia perdida.
No seio destas mutações, muitas vezes brutais, as populações não são passivas.
Em várias situações, a desflorestação, acentua-se. Como um pulsar acelerado de um metabolismo planetário em desequilíbrio, denunciando a voracidade de uma lógica que compromete as condições mesmas da sua existência.
Os impactos da ação humana nos espaços, e no planeta, não cessam de aumentar, acumulam-se, a ponto de ser necessária a invenção de uma nova linguagem, de expressão geológica: o Antropoceno. – Esta nomeia não apenas uma época, mas uma ferida; não apenas um período da Terra, mas a evidência de que o humano se tornou força geo-planetária, agente de transformação profunda, por vezes irreversível.
A degradação das árvores, e das florestas – outrora matrizes essenciais, faz-se acompanhar pela degradação dos solos, da água, …, pelo colapso da biodiversidade, … Cada perda ecoa noutras.
Grande parte das florestas próprias desapareceu. Os matorrais e garrigues que se contemplam hoje em dia, não são paisagens espontâneas, antes feridas, herdeiras de desflorestações massivas. As comunidades humanas sofrem, elas mesmas, com a própria neolitização. Um outro modo de economia é também acompanhado por uma modificação de mentalidades. Emergem também desigualdades, dependências, desequilíbrios, …, — A inscrição social de um processo que não se limita ao ambiente.
Ao longo da nossa história, as árvores, e as florestas, foram, em diferentes momentos, alvo de medidas e regulamentações visando a sua proteção, procurando encontrar um adequado equilíbrio de usos e dos espaços. Muitas vezes em resultado da constatação da sua crescente ausência ou penúria, como alguns relatos nos dão conta.
Contrastam com essa visão as cosmologias em que o conceito de natureza não tem um sentido demarcado. As árvores (plantas), como os animais, são dotadas de espíritos análogos.
As árvores, passam a ser dominadas por espíritos personificando a força da natureza. Por seu turno, o seu enfrentamento pode envolver o risco de perda de humanidade.
Torna-se cada vez mais evidente que a crise ecológica não é apenas uma crise dos ecossistemas: é uma crise do próprio pensamento que sustenta a relação humana com o mundo.
No mencionado gesto de redução, anuncia-se, portanto, a urgência de um retorno, a necessidade de uma reaprendizagem, restituindo ao mundo o que nele permanece vivo, mesmo quando esquecido.
Do silêncio instaurado, poderá emergir outra possibilidade. Convocando esse vazio, e essa inquietação, uma outra relação.
Nesta Edição dos Seminários Caminhados, dedicada ao tema da Árvore, pretende-se trazer para um campo de interrogação, de reflexão, o lugar do humano e do que se compreende sobre as árvores e os espaços arbóreos. Também, revisitar as influências históricas na compreensão e olhar sobre a floresta e as árvores.
Mais do que uma narrativa, ou a expressão de um olhar inquietante, importa indagar sobre as condições e possibilidades de uma prática coerente e compatível com um preconizado discurso político que hoje se reivindica.
Tendo, igualmente, em consideração conhecimentos e entendimentos acerca das árvores, como poderão estes saberes contribuir para transformar a nossa compreensão, a nossa posição e a nossa atuação nos espaços que nos rodeiam. E em especial numa área como a Peneda-Gerês, em que pela sua condição esta interrogação ganha uma profundidade particular.
Talvez seja nesse resto irredutível nesse pulsar silencioso das árvores, que se anuncia a possibilidade de uma reconciliação.
Ou, estaremos, afinal, perante uma renovada faceta do antropocentrismo?
João Paulo Carvalho
